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Vai começar o desfile

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O intérprete canta um samba de exaltação. O presidente faz um discurso. Distribuem bandeirolas. Uma figura famosa pula pra lá e pra cá, agitando os braços. Tudo isso pra esquentar os componentes da escola e levantar o público do setor 1.

Mas a avenida só pega fogo mesmo quando a bateria entra. Daí sim, o coração da escola começa a bater no ritmo de todos os corações.

Os passistas se requebram, o povo vibra, a escola pega fogo com a Surdo Um, lá vem a Furiosa, chega a Não Existe Mais Quente, passa a Tabajara do Samba, a Sinfônica do Samba, a Swingueira de Noel, é Pura Cadência, no Swing da Leopoldina. Todos os Santos do samba são chamados e se apresentam na avenida.

Tenha o nome que tiver, o que faz a diferença é a batida de caixas e a afinação invertida dos surdos da Mocidade, o desenho dos tamborins, o surdo sem resposta da Mangueira, o toque de Iansã da Portela, os taróis do Salgueiro, os agogôs do Império Serrano.

Eu sou do tempo em que se reconhecia a bateria de longe. Ao chegar na quadra da escola de meu bairro, ainda na rua, meu filho então com dez anos, me disse: “Olha pai ! Tem um desenho novo nos tamborins…”

Hoje a discussão foca no andamento. E a paradinha (que já foi apenas charme) se tornou obrigatória. Provavelmente para diferenciar algumas baterias, de metralhadoras.

E alguns palpiteiros pegam o metrômetro e se perdem numa discussão inútil. Muita gente confunde cadência com andamento, criatividade com ousadia.

Algumas, de fato, estão com andamento acelerado. E, dizem, estão a cada dia mais parecidas entre si.

Lá vem ela, com agogô e cuíca, em seguida tamborins e chocalhos. Surdo de primeira, surdo de segunda e surdo de terceira; repiques e caixas de guerra.

Quase não existe mais prato, reco-reco, triângulo, pandeiro, xequerê.

Escola de samba não ensina mais samba. A preocupação é com a subvenção, a venda de camisas de diretoria, a cota da TV.

O samba depende do jovem. Apenas do jovem que saiba respeitar o que tornou o carnaval uma referência cultural. E o Rio de Janeiro, que era imitado por todo mundo, anda copiando os outros. Vamos em frente e, quem sabe, numa epifania renasça esse jeito carioca de fazer carnaval.

(Ricardo Barbieri – Editorial do Programa Cidade do Samba)

Foto Barbara Alejandra

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