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Mangangá é o título do enredo do Império Serrano

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Carnavalesco Leandro Vieira busca no recôncavo baiano um herói controverso que é símbolo de identidade nacional e patriotismo

O Império Serrano vai levar para a Marquês de Sapucaí, no próximo Carnaval, o enredo Mangangá, que vai contar a história de vida de Manoel Henrique Pereira, capoeirista baiano conhecido como Besouro Mangangá, célebre através de mitos e lendas dentre as quais as que diziam que lutava com o auxílio dos orixás.

O tema é de autoria do Carnavalesco Leandro Vieira, que abordará aspectos próprios da cultura afro-brasileira no exato instante em que o racismo e o preconceito são pautas contemporâneas e a construção de heróis negros no imaginário coletivo se faz urgente.

– ‘Mangangá’ é lançado no dia sete de setembro em função da data remeter a um certo patriotismo no imaginário coletivo. Vivemos um momento de disputa de narrativa e um capoeirista que lutou contra esse Brasil que ainda hoje tenta impor seus desmandos em nossa estrutura social é símbolo do patriotismo que me interessa. Por isso ele é apresentado como o enredo da Serrinha. Pra mim, Besouro é a extensão de uma linha de enredos muito específica do império. De uma escola íntima com as matrizes africanas, de terreiro, luta, resistência e trabalho – conta Leandro Vieira.

Besouro nasceu em Santo Amaro/Bahia, no ano de 1895, sendo o principal líder da luta contra a permanência do pensamento escravagista nos primeiros anos após a abolição. Para alguns, herói. Para outros, um marginal arruaceiro que fazia da capoeira sua arma contra os desmandos sociais. Não à toa, foi assassinado no arraial de Maracangalha, vindo a falecer em 1924.

Sinopes

Eu destampei minha panela e soltei meu mangangá”

“Menina toma cuidado quando mangangá chegar”

“Besouro preto, besouro amarelo, faz a macumba do jeito que eu quero”

“Besouro preto, besouro encarnado, joguei a macumba lá no seu reinado”

(PONTO DE JUREMÁ)

1 – O berimbau puxa o toque para um jogo de dentro lento e rasteiro. Jogo mandingueiro. O toque: ANGOLA.

Seu corpo foi fechado com reza, ladainha e patuá. Èsù seu sentinela. No orí, a mão de cada uma das iabás.  Òsányìn deu-lhe a erva na medida. Xangô emprestou-lhe o oxê. Por ordenança de “seu” Arranca Toco,  Caboclo Araúna deu-lhe a flecha que usava como navalha. Ogum, por sua vez, forjou a armadura que  guardava seu corpo. Por isso, Besouro CORDÃO DE OURO, adiava com astucia, o juízo final. Ogum era seu  camará e, se não bastasse, enquanto distribuía rasteiras, golpes de meia-lua e rabo-de-arraia, o  ferramenteiro dos orixás soprava repetidamente em seu ouvido: “Filho de Ogum não pode apanhar / Eu  sou guerreiro / Eu vim guerrear/ Filho de Ogum não pode apanhar / Eu sou guerreiro / Eu vim guerrear”.

2 – O berimbau se agita. O ritmo alardeia que o perigo e a violência estão espreitando. O toque:  CAVALARIA.

Quando perguntavam-lhe por seu mestre, dizia descender de Alípio, cativo do Engenho Pantaleão. Foi  vaqueiro e amansador de burro bravo. Dizem, “o mais valente dos negros do cais de Santo Amaro”.  Valentão. Vingador. Justiceiro. Passada a escravidão, não aceitava chefia. Só trabalhava se fosse por  dinheiro. Não engolia senhor dizer que “quebrou pra São Caetano”. Os desavisados, agarrava pelo  colarinho. Surrava. Golpeava. Do chapéu, retirava-lhes a pena, como quem vingava, inclusive, a dor do  pavão.

3 – O berimbau leva o TOQUE DE IDALINA. Toque para jogo de armas brancas. Guerreia-se contra facões.

Colecionou desafeto entre senhores, jagunços e policiais. Sobre Besouro era comum perguntar: Mas  como por fim com morte matada a um cabra preto de corpo fechado como o de Besouro? Faca de tucun,  revelou um traidor. Foi assim que, após Memeu – filho do fazendeiro Zeca – ter sido desmoralizado em  praça pública pelos golpes do capoeira, uma cilada – nas redondezas de Maracangalha – emboscou o  capoeira. Na tocaia, cercado por quarenta homens, bala nenhuma tirou-lhe uma gota de sangue. Mas um  facão – concebido com a madeira mágica que ergue a palmeira de tucum em direção aos portões de  Aruanda – tombou-lhe. Seu corpo vergou. O rasgo deixou escorrer o misticismo e o mistério de sua própria  vida.

4 – O berimbau puxa o TOQUE AMAZONAS. Toque para saudar a valentia dos mestres. Escuta-se as  platinelas de um pandeiro e o dedilhar de uma viola baiana.

Guardo um ponto de juremá na memória que diz: “meu mano não chore não, que eu vou, e torno a voltar”.  Isso me lembra que a morte cantada, versada e dançada não é morte, nem despedida. Besouro morreu e  sua vida virou ladainha. Morreu, e a vida que levou virou samba de roda. Morreu, e sua valentia virou  cântico de capoeira. Morreu e sua luta vai virar samba-enredo. Besouro morreu, pra viver na festa. Na  alegria dos que vencerão.

“Êta besouro pra voar!” Segue, “sem choro e sem vela”. Canto um samba VALENTE E MIRONGUEIRO e,  atendendo seu pedido, repouso teu corpo entre os enfeites de uma lapinha, com os versos que nunca  esqueci:

“Quando eu morrer me enterre na Lapinha

Quando eu morrer me enterre na Lapinha

Calça, culote, palitó almofadinha”

Adeus Bahia, zum-zum-zum”.

Cordão de ouro

Eu vou partir porque mataram meu besouro”

ENREDO: MANGANGÁ

PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA

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