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Como fazer arte de rua sem sair na rua

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Grafiteiro Léo Shun fala sobre graffiti em tempos de pandemia

O grafiteiro é um artista de rua, aquele que deixa suas marcas e expressões nos muros da cidade, que está acostumado a fazer seus desenhos sob o olhar do grande público. Enquanto ele pinta milhares de pessoas circulam pelo entorno e com isso o artista tem a possibilidade de sentir um pouco do carinho das pessoas, de ver o quanto a arte pode comunicar com aqueles que a apreciam.

No entanto com a restrição de isolamento por causa da pandemia, surgiu a curiosidade de saber como o grafiteiro Léo Shun está se adequando profissionalmente e artisticamente a esse momento, afinal o graffiti é uma arte que surgiu nas ruas e sua característica mais marcante é justamente, na maioria das vezes, ser feita a céu aberto. Em entrevista Léo Shun nos conta tudo sobre como está fazendo para se reinventar durante a pandemia, a dificuldade em lidar com o isolamento e como tem feito para grafitar nesse período.

Entrevista:

1. O que estar na “RUA” simboliza para um grafiteiro?

Estar na rua fazendo graffiti é se conectar com as pessoas. É expressar nossa arte criando um diálogo com elas, deixando um pouco de nós ali, seja um pensamento, uma ideia ou um sentimento, o que fica no graffiti é algo de nós que se comunica com quem passa, possibilitando uma relação e uma fruição gratuita.
2. Como fazer arte de rua, sem sair na rua? Nos conte os tipos de adaptação que tem feito para continuar produzindo nesse período de pandemia.

Embora estar na rua seja uma grande característica da arte urbana, ela não se limita a esse espaço. Ela pode ser feita em diferentes superfícies e locais sem se descaracterizar, ou seja, sem perder as características estéticas e ideológicas. Eu tenho pintado bastante nesse momento de quarentena, tanto nas paredes do meu atelier quanto em telas, peças de decoração e chapas de madeira e acrílico. Algumas desses pinturas tenho postado nas minhas redes sociais.

O que acontece quando fazemos a arte urbana em outros locais é que a forma de conexão se modifica, pois na rua temos um contato mais próximo e direto com as pessoas, e na internet esse contato fica um pouco mais distante, mas não menos real.
3. Como está sendo lidar com o isolamento e romper com o hábito de produzir arte nas ruas?

É estranho. Tem momentos que dá uma certa inquietude, uma vontade enorme de ir pra rua pintar, interagir com o movimento urbano, com as pessoas… Mas entendo que esse é um momento de ficar em casa e expressar minha arte aqui. Desde março que só saio na rua em caso de extrema necessidade, muito raramente.
4. Você já teve que recusar trabalhos de graffiti nesse período de pandemia? Como foi?

Sim. Nesse período eu fiz uma pausa em todos os trabalhos e projetos externos, tenho explicado aos clientes a necessidade de ficar em casa nesse momento e sobre a possibilidade deles esperarem até passar essa pandemia.

5. Como foi interromper os projetos de exposição e murais de graffiti? Existe a possibilidade de dar continuidade aos projetos pela internet, através de Live?

Fizemos muitos planos para esse ano, e em fevereiro começamos com tudo pintando um mural gigante, com mais de 200 metros quadrados, na escola Collecchio em Bangu. Alguns projetos grandes já estavam agendados e outros já sendo encaminhados. Mas acredito que tudo tem um momento certo, Deus está no controle. Estamos preparando uma live, queremos fazer algo que as pessoas gostem e proporcione, ainda que virtualmente, um contato bem próximo com a gente e com a nossa arte.

6. Como você vê os recursos da internet para o grafiteiro nesse período de pandemia?

A internet é uma ferramenta fantástica. Através dela a conexão da nossa arte com o público se mantém e as pessoas podem acompanhar nosso trabalho e até mesmo o processo artístico. Talvez devido à necessidade criada nesse momento, poderemos aprender a explorá-la de uma forma como nunca antes. Além disso possibilita continuar trabalhando nesse período de quarentena, eu por exemplo, tenho feito vídeo aulas de graffiti para o Bangu Shopping, tenho dado aulas particulares online e continuo com os trabalhos de ilustração.

7.   Como artista e grafiteiro, como você vê o mundo e as relações humanas agora e pós pandemia?

As relações humanas são o tema central das minhas obras, eu pinto a minha percepção de felicidade a partir dessas relações e por isso tenho pesquisado e me aprofundado nesse tema há muitos anos. Eu acho que esse momento é uma grande oportunidade para as pessoas se aprofundarem nas relações mais importantes e que devido à correria e às distrações do dia a dia acabam se esquecendo de desenvolver e usufruir. A relação com sua família, consigo mesmo e com Deus. Essas três relações são as mais importantes na vida de qualquer pessoa e muita gente nem se dá conta. Esse momento é uma grande chance de mergulhar profundo nessas relações. Ainda não sei o que esperar do pós pandemia, mas sinceramente quero muito que esse momento abra os nossos olhos e nos desperte para um novo estilo de vida, com relações mais profundas, e muito mais amor.

8. Como tem sido as suas inspirações em tempos de pandemia?

Eu acredito que a arte é algo vivo, ela nasce a partir de uma relação de percepção e sentimento onde o artista é apenas um canal de expressão para trazê-la ao mundo. Por isso o momento em que vivemos influência tanto na arte, o momento provoca percepções e sentimentos e faz a arte brotar como uma resposta, uma mensagem viva da qual o artista não é detentor. Estou explicando esse ponto de vista para que vocês entendam a influência do momento vivido e como a arte se relaciona com o momento. Minhas inspirações têm seguido na minha linha de pesquisa, tenho pintado sobre as relações e sobre felicidade a partir da percepção que esse momento me dá, e depois que pinto gasto um bom tempo conhecendo a obra, admirando, percebendo e me relacionando com ela.

9. Você é um grafiteiro conhecido por retratar em sua arte a “FELICIDADE”, você pintaria algo que retratasse esse momento de pandemia?

Com certeza. As pessoas acham que felicidade é sinônimo de alegria, porém penso diferente. Eu busco definir tudo o que é importante pra mim, para que eu possa chegar o mais perto possível de uma compreensão, e a minha definição de felicidade é que ela é a capacidade interior de viver o melhor de cada momento, por exemplo, você pode estar vivendo um momento triste, mas encontra dentro de si a melhor forma de viver aquela tristeza, sem sucumbir à ela, encontrando sentido, fazendo brotar em si, apesar da tristeza, sentimentos que te vivifiquem. Isso é um exemplo de manifestação da felicidade na tristeza. A felicidade se mantém incondicionalmente, seja na alegria ou na tristeza, no interior de todas as pessoas esperando ser acessada. Isso é o que tenho percebido ao longo dos anos e das experiências que vivencio e que ouço. Uma das minhas obras que mais tenho apego se chama Recomeço e retrata uma menina que chora uma dor enquanto dança, eu pintei essa obra num momento de profunda tristeza e ela faz parte de uma série de obras intitulada Felicidade. Essa obra pra mim é uma grande expressão da felicidade. Nesse momento da pandemia pintei algumas obras como “Choro de Deus”, “Paraísos”, “Felicidade”, dentre outras que são uma expressão de felicidade, não de alegria, em meio a dor que estamos vivendo.

10.Qual graffiti você pretende fazer quando a pandemia terminar?

Ainda não sei ao certo, mas tenho um esboço que fiz mês passado e acho que vai ser o primeiro graffiti que vou fazer quando esse momento passar, se chama “O Abraço”.

Para conhecer mais sobre o grafiteiro e artista plástico Léo Shun é só acompanhá-lo através das redes sociais, Léo Shun e Shun Graf (suas páginas no Facebook), @galeriabangubyshun @shungraf e @leoshun_rj (Instagram), e no seu site www.leoshun.com.br

Fotos, Matéria e texto – Lorena Crist

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