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Unidos de Padre Miguel entrega sinopse

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Na tarde de sábado, 13 de julho, a direção da Unidos de Padre Miguel se reuniu com a ala de compositores para realizar a explanação e entrega de sua sinopse para o carnaval 2020.

Para animar a tarde a agremiação contou com a apresentação do grupo Cia Capoeira e exibiu um vídeo de divulgação do enredo.

A leitura da sinopse foi realizada por Marcos Roza e o carnavalesco Fábio Ricardo fez a explanação do enredo que contará a história da capoeira.

– Peço a todos os compositores que respirem a capoeira, peguem livros, peguem vídeos, levem para dentro das casas de vocês e tragam  sambas maravilhosos para nossa escola. Que vocês tenham um carinho muito grande por esse enredo e pela Unidos de Padre Miguel – afirmou o carnavalesco.

O diretor de carnaval Cicero Costa, aproveitou a oportunidade e anunciou o calendário da disputa. – Vamos começar nossas atividades no dia 18 de agosto, onde faremos a apresentação dos sambas em nossa quadra  durante a feijoada. Na sexta-feira, dia 23, faremos a primeira eliminatória  e nossa final do samba acontecerá no dia  06 de setembro. – disse Cicero Costa.

Os compositores poderão tirar as dúvidas nos dias 20 e 27 de julho com o carnavalesco Fábio Ricardo na quadra da escola a partir das 16 horas . Já no dia 10 de agosto, de 16h às 19h  os compositores deverão entregar suas obras na quadra da escola e pagar uma taxa de R$ 200,00 (duzentos reais) por parceria, que devem ser pagos no ato da entrega do samba-enredo concorrente, além disso, as parcerias deverão entregar em envelope ( 03 cds + 30 cópias da letra + 01 pen-drive com letra e áudio do samba, sendo esse pen-drive obrigatório.)

Veja abaixo o clipe de apresentação do enredo, e logo abaixo a sinopse

Produção do Vídeo: Unidos de Padre Miguel e Maestro Filmes

SINOPSE

G.R.E.S. UNIDOS DE PADRE MIGUEL SINOPSE DO ENREDO – Ginga Carnavalesco: Fábio Ricardo Pesquisa e texto: Marcos Roza

Viajando no tempo da poesia, nasço da espontaneidade sagrada, do mítico ritual do povo Mocupe do sul de Angola. Brincando entre as brisas, filhas do vento, desperto o desejo de conquista de jovens guerreiros à dança do N’golo. Lembro-me bem: os tambores anunciavam a preparação da Enfundula – festa de passagem à vida adulta –, quando as raparigas fertilizavam o sangue da puberdade num misterioso cio, que encorajava rapazes a lutar pela disputa de suas esposas. No afã da minha gente, sou a doce e constante firmeza de elo e abrigo. Filha da Mãe África, “berço da humanidade”, cresço entre seus ritos de mistérios e verdades, templo sagrado de Okô – divindade da agricultura, formo do sábio cultivo da terra e do domínio que forja as ferramentas ao seu plantio; dita ventura à típica pecuária, entrelaço-me à candura dos diversos encantos de sua cultura. Mãe! Eu sou a extensão do seu umbigo, fruto que brota desse chão, a força e o espírito de nossas tribos… Assim, eu sigo, levada pela tradição de seus ensinamentos, a destreza para vencer os inimigos.

Tudo ressignificava o meu saber, emergindo da linha do horizonte, trazida pelo cerne da dor e do lamento. Cruzo a imensidão dos mares entre a calmaria e a tempestade, acorrentada pela intolerância de homens fiéis à ganância e ao poder. Desprovida de liberdade, meu corpo padece, é escravo por fim. Mas não é rendido, apesar de ferido, encontra o elo supostamente perdido.

Por bem ou por mal aos ferros expostos, terei, eu, sorte igual? Longe das minhas paisagens habituais, velo a alma coberta de poesia tradicionalmente africana, em terras distantes. Entre pregões e a violenta estada no “Cais do Valongo” – por onde chegaram milhares de negros escravizados, sigo o “bando banto”. Abrasada nas senzalas, rompendo o silêncio de noites sombrias, sou incorporada feito arte matuta, uma espécie de dança, disfarçada entre os afazeres da labuta. Mas é na hora da fuga, usando os pés, as mãos e a cabeça, que me revelam como luta – subtraída da dor contra as “leis do opressor”.

Diante do que se vê, tudo parecia uma cilada: numa relação humana, onde o elemento principal é a expressão do corpo, sou alvo do realismo fantástico de olhares estrangeiros. Telas são pintadas registrando a vida urbana, fosse de forma sóbria ou insana, o fato é que o ato da pitoresca caravana representa um fenômeno antropológico intrinsecamente ligado a diversos episódios da minha trajetória.

Vida que segue…talvez agora o mundo havia me descoberto. Paira sobre mim – por meio de uma mistura indígena-luso-africana – o intuito da vadiagem. Numa tentativa de lograrem ao que se convencionou chamar de Brasil, passeio pelo inconsciente coletivo associada historicamente aos batuques angolanos, ao candomblé dos jejês e às danças dos caboclos da Bahia. Da memória falada à boca pequena, muitos são os nomes, apelidos e citações. Tudo verdade, no campo ou na cidade, sou mato-ralo, rasteira, extensão sem fronteira, por fim miscigenada, sou afro-brasileira.

Como a inocência de uma criança, ibejê de esperança, sou praticada em círculo de arte-defesa. Pura ou armada à ladainha do mestre Pastinha e entre tantos outros camaradas, minha filosofia é criada. Abençoados sejam meus filhos, pois chegou a hora: repouso íntima e genuína aos valores da tradição de Angola. Com o saber gravado n’alma, danço, gingo, pulo, brinco e rodopio. Da cerimônia ao desafio: peço a benção nos pés do atabaque e o jogo inicia. Saio no “aú”, me fortaleço no “rabo de arraia”, finco meu pé e não entro de “bua”, planto “bananeira”, solto “meia- lua”…me esquivo na “negativa” e o jogo continua…

“Sou manha, malícia, mandingueira, sou tudo o que a boca come…” Como guardiã da cultura negra e da preservação do seu saber, abro minhas rodas nas ruas, nas feiras, nas festas, nos cais, comandada pelo berimbau…regidos por vareta e bordão, soam o “Gunga”, o “Médio” e o “Viola”. Também seguem o ritmo: chocalho, reco-reco, agogô e pandeiro. Toques, cantos, cantigas, corridos e ladainhas, tudo numa só sintonia: “São Bento Pequeno, Jogo de Dentro, Ave-Maria, São Bento Grande, Cavalaria, Maculelê, Benguela, Santa Maria”. Canto e o coro responde: “Paraná-auê, Paraná-auê, Paraná…ê viva meu mestre, ê viva meu mestre camará, quem me ensinou…ê quem me ensinou camará…ê vamo-nos embora…ê vamo-nos embora camará… ê pelo mundo afora…ê pelo mundo afora camará…”

Na volta que o mundo dá, tem fé e pecado. Tem mandingueiro pra tudo que é lado. Às festas das santas, da Boa Morte e do Rosário, meu gingado é sagrado na procissão e na folia do congado.

Mas, diante dos dados reais da vida, me pego pensando: sofri imensa perseguição e poucos sabem que dois anos depois da Abolição, Marechal Deodoro da Fonseca decretou minha proibição. Assim prossegui, entre brigas e arruaças, até o ano de 1932. Quando mudam o meu feitio, saltante, esportiva, com golpes rápidos e técnicas de arte marciais, fico mais ligeira e politicamente correta, aceita pela sociedade brasileira. Ganho status de uma tal gente bacana, que pelos ensinamentos de mestre Bimba, passa a me chamar de Luta Regional Baiana. Nesse espaço social, por meio de um novo decreto presidencial, sou legalizada como profissão. Saio da pauta policial e, na condição de esporte e lazer, sou praticada em todo território nacional.

Dominada pela carga simbólica dos signos místicos da cultura afro-brasileira em meio dos quais cresci, abro as cortinas do passado, saúdo os meus heróis – que tradicionalmente gingaram, relacionando-se até hoje suas atividades à história de luta e à formação do povo brasileiro: a realeza de Zumbi, do Quilombo dos Palmares; a “ginga verbal” de Machado de Assis; as batucadas e o candomblé de Tia Ciata; o olhar cotidiano de João do Rio; a plasticidade de Rubens Valentim; o Brasil folclórico de Macunaíma e os sambas de Candeia cantados em jongos, pontos de umbanda, sambas de roda e partido-alto, cantigas de maculelê e sambas de enredo.

Meu gingado é a gira, que corre gira nas rodas pelo mundo. Seguindo o caminho voltado para a cultura, luta e resistência do povo brasileiro, consagro-me ao receber tamanho reconhecimento de Patrimônio Imaterial da Humanidade, de roda e ofício. Ao enredo do meu samba, unindo a todos que vão e que vêm, enalteço a força e a raiz quilombola da comunidade da Vila Vintém.

À devoção dos meus filhos, sou padroeira, sou a ginga do carnaval da Unidos de Padre Miguel. Nessa mistura brasileira, Sou mandinga, A todos digo Feliz e sorrateira: Muito prazer, Eu me chamo Capoeira.

Ideia Original e Carnavalesco: Fábio Ricardo Pesquisa e Texto: Marcos Roza

Bibliografia Consultada: ALMEIDA, Raimundo César A., Bimba, Perfil de um Mestre, Imprensa Gráfica Universitária, Salvador, 1980. AREIAS, Almir das, O que é Capoeira, São Paulo, ed. Brasiliense, 1983. BURLAMAQUI, A Ginástica Nacional (Capoeiragem Metodizada e Regrada), Rio de Janeiro, 1928. CAPOEIRA, Nestor, O Pequeno Manual de Capoeira, ed. Ground, 1981/ 4a. edição revisada: Rio de Janeiro, ed. Record, 1998. CARNEIRO, Edson, Capoeira, MEC – Campanha de Defesa do Folclore, Rio de Janeiro. _______, A Herança de Pastinha, Coleção São Salomão, 1997. MARINHO, Inezil Penna, A Ginástica Brasileira, Gráfica Transbrasil Ltda, Brasília, 1981. OLIVEIRA, José Luiz, A Capoeira Angola na Bahia-2a. edição, ed. Pallas, Rio de Janeiro, 1997. OLIVEIRA, Waldemar, Capoeira-Frevo-Passo, Companhia Editora de Pernambuco, 1971. PASTINHA, Mestre, Capoeira Angola, 3a. ed., Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1998. REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, “Capoeira de Raiz: Angola pistas da arte ancestral”, v.3, n. 30, 2008.

VIEIRA, Luiz Renato, O Jogo da Capoeira – Cultura Popular no Brasil, Rio de Janeiro, ed. Sprint, 1998.

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